terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Preços no Brasil: imposto+margem ou tem outros fatores???

Tenho visto alguns comentários, posts e textos sobre os preços no Brasil, que realmente são abusivos, extremamente superiores a praticados em outros países. Esta é uma situação que terá conseqüências graves em um breve futuro.

Porém a análise não é tão simples como colocam em alguns desses comentários. É real que o Brasil tem uma carga tributária imensa e que as margens dos produtos são enormes, mas só isso não explica os preços por aqui.

O grande problema do Brasil é a eficiência.

Tenho certeza que você já ouviu falar do custo Brasil. Este custo é composto, além de impostos, por ineficiências, restrições, péssimas condições de operação empresarial, juros e ainda por uma cultura de rápido retorno.

Tanto impostos abusivos como margens de lucro altas são conseqüências de outros fatores. É um texto de forma geral desta questão no Brasil, mas em alguns pontos vou focar o mercado de vinhos importados. Vamos às principais:



Impostos

A carga tributária sobre o PIB no Brasil é em torno de 35%. 12 pontos percentuais acima da Argentina (quase 50% maior) e 7 pontos acima dos EUA (25% maior).

Quando falamos de carga tributária, não só de ICMS, IPI e Cofins tratamos. Inclua-se ai IPTU, IPVA, enfim uma série de impostos que não estão ligadas à operação da empresa, mas que compõe sua base de custo.

E outro complicador que não se menciona muito é a complexidade das leis. As empresas precisam manter departamentos inteiros ou contratar empresas especializadas para cumprir integralmente com a legislação fiscal e outras burocracias. Uma empresa de pequeno porte dificilmente tem condições de cumprir com toda essa legislação e ai abre-se uma porta para a corrupção.



Corrupção:

Temos um governo corrupto que precisa de burocracia e leis complicadas para manter essa corrupção. Se o governo já é sócio do nosso negócio com os impostos, a corrupção faz com que os fiscais do governo também fiquem sócios.

Vocês devem imaginar o que é desembaraçar um container no porto. Muitas vezes o produto fica retido por meses no porto esperando uma solução burocrática. E ainda complicam mais, incluindo o tal selo no vinho. O capital empatado e a operação logística com mais operações vai encarecendo o produto ali parado no porto.



Custo do Capital:

A taxa básica da economia está em 10,5% ao ano, levando os juros reais para 4,9% (descontando a inflação). Agora se o empresário brasileiro tivesse acesso a crédito nesse patamar de taxa de juros estaríamos no céu.

O custo do capital está em torno de 30% ao ano. Adicione-se a isso a dificuldade em obter crédito.

Imagine novamente na situação acima para a liberação do container no porto, o impacto do custo do capital no preço da mercadoria.



Custo da folha de pagamento:

Além dos impostos incidentes sobre o produto e sua movimentação, também outro custo torna a operação brasileira entre as mais caras do mundo. Enquanto nos EUA, os encargos sobre a folha de pagamento giram em torno de 6 a 7%, no Brasil chega a ser de 80% (sem contar benefícios extras que as empresas oferecem).

Eu sou do mercado de tecnologia da informação e sei o quão pouco competitivo somos no mercado mundial de desenvolvimento de software devido principalmente ao custo da mão de obra por aqui.



Infra-estrutura:

O Brasil está muito, mas muito atrasado neste quesito. Falo da infra-estrutura de toda ordem: logística, telecomunicações, energia, educação.... entre outras.

Logística: dependemos de um único modal interno: rodoviário, que não é a de menor custo. Também é a de menor segurança, mais suscetível a assaltos. Devido a esta falta de segurança, as empresas são obrigadas a ter sua própria esquema de segurança. Mais custo!

Portos ruins de operação deficiente e estrutura atrasada, estradas de péssima qualidade ou quando não com alto custo de pedágios, o pior combustível do mundo (nossa gasolina ou diesel é umas das mais ineficientes). De novo, vários fatores que geram custo e ineficiência.

Telecomunicações e energia: é das mais caras do mundo. O Brasil precisou dar um salto de qualidade nos anos 90, estávamos muito defasados do mundo. Foram pesados investimentos que estamos pagando a conta ainda.

Conheço várias empresas que deixam de manter operação fabril no Brasil devido a estes custos. Um exemplo é a indústria de papel (por um lado felizmente não instalam outras unidades aqui, pois é um setor muito poluidor) que é intensivo em energia elétrica.

Educação: o brasileiro é um dos melhores profissionais que já vi no mundo, porém somos muito mal formados. Péssimas escolas de base e uma enxurrada de faculdades e universidades sem a menor condição de formação adequada de mão de obra qualificada. A universidade pública, que é de boa qualidade, acaba recebendo os alunos das melhores escolas secundárias, portanto as pagas. Mesmo o 2º grau que poderia formar técnicos, são raros os casos de escolas que formam adequadamente. Portanto acabamos por ter uma mão de obra não tão eficiente, que apesar de todo o esforço, criatividde do profissional brasileiro.



Ineficiência de gastos do governo:

Pode parecer retórica, mas o fato de pagarmos altos impostos e não termos em retorno de serviços eficientes de saúde, educação, moradia, traz mais custo para as empresas. Ela acaba tendo que ocupar esta falha do governo. Os gastos com programas sociais têm que dar o segundo passo: primeiro trouxe o peixe, agora precisa ensinar a pescar. Isto quer dizer, formar melhor mão de obra e gerar condições de aumentar o emprego.

Além da ineficiência de serviços para a população, a falta de investimentos na infra-estrutura causa problemas que podem gerar um apagão neste país, um apagão logístico, de energia, de mão de obra... Muito preocupante.



Uma frágil estabilidade:

Tudo é recente neste país. A estabilização política ainda não tem 30 anos. Muitos dos políticos atuais que gravitam no poder ainda são da geração da ditadura militar. Como a transição não foi uma ruptura, foi negociada, a população teve uma participação parcial no processo, ainda existem resquícios da cultura política de outrora.

A estabilidade econômica é mais recente ainda. Ainda brigamos para evitar a inércia inflacionária. Apesar de o governo atual ter mantido a política econômica que gerou esta estabilidade, vemos alguns setores do próprio governo dar menos importância a uma estabilidade econômica impulsionando gastos de custeio que não trarão incentivo à economia.

Com toda esta incerteza, o empresário coloca no seu custo o risco Brasil!!



Concluindo, a alta carga de impostos é um dos causadores dos enormes preços no Brasil sim é. Mas o governo precisa manter esta carga para conseguir cumprir com o custeio da máquina que, por sua vez, não traz benefícios para a economia, portanto empresas, portanto aos empregados.



Por sua vez, os empresários colocam altas margens para 1) para compensar este custo Brasil e 2) para remunerar o alto risco de ser empreendedor no Brasil, pois ainda vivemos uma estabilidade muito frágil. Um empresário faz um investimento de porte médio para baixo buscando um retorno de capital entre 2 e 3 anos.



Então o que temos que mudar:


1) O governo precisa ser mais eficiente. A arrecadação com os impostos precisa retornar mais para a infra-estrutura para as empresas. Reduzir a burocracia.
2) Criar melhores condições de competição nas áreas de telecomunicações, energia e financeira. As empresas precisam baixar seus preços
3) Merece um item: o spread bancário precisa cair drasticamente. Necessitamos de mais competição no mercado financeiro, os bancos governamentais precisam exercer um papel mais decisivo aqui. O Banco Central precisa reduzir o depósito compulsório para aumentar a oferta de dinheiro e os bancos comerciais precisam ser menos gananciosos!!! Talvez a criação de uma agência reguladora poderia reduzir os ganhos dos bancos.
4) Melhorar a malha logística, desde portos, rodovias, aéreo (reduzir custos!!!) e incrementar muito a ferrovia.
5) O empresário precisa ter confiança no país e na estabilidade político-econômica e fazer investimentos de mais longo prazo. O retorno irá acontecer ao longo de dez, quinze, vinte anos.


Lei da Ficha Limpa: avanço ou tutela?

A Lei da Ficha Limpa está aprovada. Agora aqueles condenados em órgão judicial colegiado ( mais de um juiz) ou transitada em julgado (sentença definitiva e irrecorrível) não podem se candidatar a um cargo eletivo (vereador, deputado, senador, prefeito, governador, presidente).

Uma conquista formidável para o povo brasileiro. Dizem alguns especialistas que será uma revolução na política nacional.

Mas porque precisamos de uma lei para impedir candidaturas de pessoas com problemas na justiça? Ainda precisamos de leis que exprimem apenas o bom senso?

Eleição deveria servir para uma seleção natural dos melhores candidatos. Quero dizer por melhores candidatos aqueles que irão (se não já foram e estão tentando uma reeleição) propor, aprovar e aplicar leis para otimizar o uso dos recursos públicos para melhorar a vida da população. Portanto, candidatos com passado ligado à corrupção deveriam ser os primeiros a serem eliminados pela “seleção natural” das eleições. Mas não o são!!! Esse é um fato.

Com exceções raríssimas, os poderes legislativo, executivo e judiciário estão cheios de maus elementos que visam primeiro se apoderarem da coisa pública para uso privado, para o benefício de uma pessoa ou de um partido.

Dirão alguns que esta não é uma realidade só no Brasil, outros países mesmo do chamado primeiro mundo sofrem com governantes corruptos ou aproveitadores da coisa pública. É verdade, existem. Mas são severamente punidos pela justiça e principalmente pela opinião pública. O que não acontece aqui no Brasil. Vemos políticos acusados (se não condenados) por maus feitos (a palavra da moda para corrupção) que voltam ao teatro político, alguns ainda de forma triunfal.

Sinceramente, sinto vergonha quando acontece isso!!!

Então, porque no Brasil não acontece essa seleção natural?

Em minha opinião, esta situação é resultado de uma cultura secular de exploração, junto com uma democracia ainda jovem e por fim de baixa educação da população. Talvez esteja simplificando uma questão muito complexa, mas temos que atacar o que está ao nosso alcance.

Cultura secular e democracia jovem são dois itens que não podemos mudar.... Ambos são uma questão de tempo, e o tempo é inexorável e, como diria o Magri, “imparável”.

Portanto, resta atuar na educação do povo!!!

Um desvio do tema, mas que tem sentido no contexto final. Fico algumas vezes avaliando o conflito ético de determinados setores da economia. Do ponto de vista puramente de mercado, qual seria a estratégia de pesquisa de uma indústria farmacêutica? Remédio que mantém a pessoa doente, não cure, mas que não a deixe morrer. Assim seu mercado permanece!!! Óbvio que as indústrias farmacêutica não fazem isso, é só um exercício mental.

Outra indústria: a de armamentos de guerra. Ela sobrevive se existir  guerras.  Portanto, imaginem uma campanha publicitária de uma empresa assim... E ainda outras como a indústria da droga, do cigarro, de anti-virus para computadores. Todas têm um conflito ético para resolver.

Aqui fica uma pergunta? Do ponto de vista de mercado, qual a motivação de um governo  investir na educação política da população? Um povo educado politicamente é mais crítico a qualquer governo. Será que foi este o medo dos nossos legisladores para nunca terem proposta uma lei como esta? Afinal esta lei também serve como uma aula de boa política.

Mas voltando ao tema central, ainda precisamos de leis que criam regras de conduta, isto é, leis como a da Ficha Licha que impede votar em corrupto!!! Parece óbvio, mas ainda precisamos desta tutela.

Será que precisamos de outras leis parecidas? Leis como experiência mínima para candidato a governador e presidente? Atuação prévia comprovada na sua comunidade para se candidatar a vereador?

Somos imaturos politicamente. Teremos muitos anos pela frente para aprender a votar, a separar disputas ideológicas de brigas fisiológicas pelo poder.

Só espero que nos dêem este tempo para aprender .....