Comentário no Estadão - 14/09/2010
A disputa pela Presidência está polarizada entre Dilma e Serra. Na verdade, segundo as últimas pesquisas de opinião, a disputa será unipolar, se é que existe uma disputa somente com um polo. Mas se confirmando a vitória da Dilma, como será o governo dela? Ela terá a habilidade e força para controlar a ânsia da esquerda petista em transformar o governo em sede do PT e para peitar o avanço do PMDB nos principais cargos de órgãos e empresas estatais?
A Dilma, pelo seu passado voltado para a luta armada revolucionária, tem uma ligação muito forte com os radicais de esquerda, tem como ideologia o controle absoluto dos meios de produção e de comunicação. Apesar de não ser um membro histórico do PT, tem mais sintonia com algumas vertentes marxistas do PT do que o lado liberal. E foi o lado liberal do PT que conseguiu continuar as importantes mudanças que o governo FHC realizou. No Ministério da Fazenda, o Lula colocou o Palocci e no Banco Central, o Henrique Meirelles, que era deputado federal do PSDB por Goiás. Manteve as principais linhas liberais na gestão da economia: controle da inflação, controle dos gastos, Banco Central autônomo para garantir a moeda, cambio flexível. Portanto, não há garantia de que a Dilma mantenha a atual política econômica.
Ao longo do governo Lula, os principais líderes que poderiam suceder-lhe foram caindo pelo caminho: Dirceu, Genoino, Gushiken, Palocci. Todos caíram devido a escândalos no uso da máquina pública em proveito do partido e até próprio, como, por exemplo, o mensalão. A ecorradical Marina Silva também foi colocada de lado. Nenhum outro líder conseguiu aparecer, primeiro, porque o próprio Lula se fez tão iluminado que todos ficaram à sua sombra e, segundo, porque o PT carece de representantes para ocupar o cargo de presidente da República.
Assim, a Dilma foi escolhida porque, na verdade, não tem passado político, seria fácil colar a figura de Lula nela, afinal, ela não tem cara, não tem identidade na política. Isso pode ser bom para competir na eleição, mas esta falta de experiência política será péssima para a gestão. Além do mais, as alianças políticas são as piores possíveis. Algo até inimaginável: o PT, que subiu ao poder pregando a ética na política, hoje está associado a Sarney, Collor e Renan Calheiros, representantes das principais oligarquias políticas do Brasil coronelista. A estratégia de poder do PT não é mais ideológica, e sim fisiológica. Tudo é uma tática para ocupar o poder (e não exercê-lo, que é a função de quem é eleito).
E talvez o pior de tudo sejam os candidatos a senador, a deputado federal e estadual. Imagina a qualidade das decisões do Legislativo com Netinho no Senado, Tiririca na Câmara Federal e ainda Mulher Melancia, entre outros. É tudo o que um governo neoditatorial (ditadura pela democracia) deseja, um Legislativo sem força alguma, subserviente aos comandos do Planalto Central.
Eu desejo que políticos de qualidade, com respeito à ética e principalmente puros democratas, sejam eleitos agora em outubro. Não podemos deixar o Brasil virar uma Venezuela, onde não existe mais o direito a opinião, a economia está em frangalhos, a classe empresarial está fugindo do país e, por fim, o povo necessitado está ficando órfão. O Brasil melhorou muito, mas ainda não somos um povo politicamente educado. Ainda acreditamos no assistencialismo como resposta única aos problemas dos pobres, deixamo-nos dirigir por líderes carismáticos, e não por líderes eficientes. Estas características definem o povo brasileiro ainda na infância de um aculturamento político.
Eu desejo alternância no poder. A troca de partidos no comando do governo é muito salutar, pois evita ditaduras escondidas, reduz a corrupção, enfatiza a competência e torna o Estado mais eficiente. O funcionário público, desta forma, é mais técnico do que político, pois o torna independente do partido que está no governo e assim foca nas principais necessidades do seu cliente, que é o povo brasileiro.
Comemorei a eleição do Lula. Foi uma demonstração de que as instituições democráticas no Brasil estavam sólidas quando o povo colocou na cadeira de Presidente da República um operário sem nenhuma preparação escolar e de passado combativo ao regime militar. Fiquei mais feliz ainda quando o governo Lula continuou com programas corretas do governo FHC, afinal, precisávamos de continuidade para atingir a estabilidade. Os programas iniciais assistencialistas também tinham um apelo interessante, desde que usado com critério.
Mas fico muito preocupado quando vejo atitudes que querem quebrar esta conquista do povo brasileiro. Algumas dessas atitudes: a proposta de nova lei da imprensa que foi publicada pelo PT, a redução da autoridade do TCU, o aparelhamento de órgãos como Polícia Federal e, principalmente, a tática empregada por regimes de força, que é a propaganda estatal baseada em verdades criadas (como a tal herança maldita do governo FHC). E ainda a estratégia da política externa de aproximação diplomática com regimes nitidamente autoritários: Venezuela, Irã, Guiné Equatorial.
Fico preocupado quando as políticas assistencialistas estão servindo para "deseducar" o povo de uma visão crítica da política, quando estes programas servem para cegar a opinião de pessoas humildes. Sou da opinião de que se deve ensinar a pescar, e não dar o peixe. Sim, o índice de desemprego no Brasil caiu, o que nos leva a concluir que tem mais gente pescando do que antes. Mas temos que analisar de forma qualitativa estas informações. Qual foi a real contribuição do governo Lula nesta área? A economia absorveu mais mão de obra porque a economia mundial cresceu muito nos últimos anos (Lula não foi o responsável por isso), e o Brasil estava preparado para não perder este crescimento (preparado pelo FHC, com moeda estável, mercado bancário sólido e bons fundamentos para cumprir contratos). Muito havia o que fazer, muito foi feito e muito ainda há por fazer. Agora, quais foram os resultados dos programas assistencialistas? Quais famílias assistidas subiram de classe social por terem conseguido emprego?
Herança maldita é o resultado de décadas de más administrações. FHC foi o início da virada. Lula teve o mérito de dar continuidade à estabilidade e fez melhorias para consolidá-la. Portanto, afirmar que o governo Lula vem de uma herança maldita é, no mínimo, injusto, e com certeza é não reconhecer que alicerces estavam instalados. A atitude de falar desta herança é como a expressão popular "cuspir no prato onde comeu".
Não vi nada de novo no governo Lula. O melhor foi a continuidade. O pior foi o aparelhamento do Estado, os escândalos de corrupção e a total decepção com a ética. Eu quero a continuidade da política econômica. Eu quero o fim do uso do governo em proveito do que não seja única e exclusivamente do interesse do povo, do crescimento do País, da melhoria da qualidade de vida.
Por isso, minha conclusão é que Dilma não é a melhor opção. Não tenho certeza de que ela irá continuar o que está bom, que é a condução neoliberal da economia; e a corrupção e a falta de ética irão permanecer. Veja nos jornais que José Dirceu já está querendo a Casa Civil e os Ministérios da área econômica. Eles vão voltar....
Fabio Barnes fabiobarnes@hotmail.com
São Paulo
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